
Às vezes abro a janela
E encontro o jasmineiro em flor
Outras vezes avisto nuvens espessas no ar.
(Cecília Meireles - A Arte de Ser Feliz)
Acostumada a viver em terreno plano, é quando contemplo o mundo por uma janela do 7º andar que percebo as diferenças.
No apartamento à frente, histórias acontecem. E a menina, curiosa, fica a inventar diálogos e cenários para o que vê.
(OH NÃO! A moça tirou a blusa.
Agora parecem haver duas iguais.
Gêmeas?
Ou seria só um espelho?
Mesmo corte de cabelo?
Quantas camisetas brancas existem no mundo?).
Não dá pra ouvir e nem saber a história real. Não se pode precisar a situação e nem o que aquelas pessoas estão pensando. O máximo que posso fazer é contemplar as janelas. E quando me cansar de um enredo, basta apertar o botão e mudar de "canal". Quase como uma tv.
Olhando para baixo, posso ver o Warner Channel exibindo o cotidiano de várias amigas, felizes. A janela logo acima e à esquerda mais parece o Telecine Emotion: triste e escura, transmite angústia e solidão.
Algumas janelas estão apagadas, como canais fora do ar. Em outras a vida acontece atrás de cortinas e talvez você deva pagar o Pay-per-View para saber suas histórias.
No Warner Channel, as moças continuam a trocar de roupa - talvez se preparando para a balada. No Telecine Emotion, o personagem principal entrou em cena e se encontra sozinho, sentado em frente a janela escura.
Não consigo definir exatamente em que canal estou. Ou mesmo se tem alguém olhando. Talvez alguém ache que as histórias desse apartamento valham alguma coisa. Quem sabe quem está assistindo?



